Lavrador-escritor de Ecoporanga tem 14 livros e 250 músicas compostas

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DSC02751O que já é bom pode ficar ainda melhor. Se a história de Paulino Leite, o lavrador de Ecoporanga que só tem quatro anos de escola, já impressionava pelos 7 livros que ele publicou, agora é que fica ainda mais instigante, como definiu o escritor capixaba Reinaldo Santos Neves: ele tem mais 7 livros manuscritos, à espera de oportunidade para publicar, e ainda fez uma revelação: tem 250 músicas de sua própria autoria compostas.

Foi na escola da vida, observando e copiando quem sabia fazer, e escutando muito a história das pessoas, que Paulino Leite, hoje com 70 anos de idade, buscou inspiração e aprendeu aquilo que se tornou sua razão para viver: escrever livros.

Desde que começou, há quinze anos, já produziu sete, todos contando, em forma de versos, que permitem uma leitura dinâmica e divertida, conhecer mais a história da gente e do lugar onde cresceu e sempre viveu: Ecoporanga, a 350 quilômetros ao Norte do Espírito Santo. Mesmo o isolamento da cidade não impediu Paulino Leite de inserir-se no mágico mundo da literatura.

Costuma-se dizer que ninguém passa por Ecoporanga. Ou se vai ou não se vai, porque até hoje os governos não permitiram à comunidade exercer seu dom da hospitalidade com os passantes, porque não concluem a rodovia federal projetada para ligar as BRs 116 e 101 e que corta o município. Mas quem disse que Paulino Leite precisa de outras influências para desenvolver sua arte inata? Ele conta como aprendeu a ler e escrever:

“Eu tenho uma comadre que lê muito bem. Ficava admirado de ver como ela entendia e pronunciava as palavras e resolvi ser igual”. Vontade de estudar Paulino frequentou a escola regular por quatro anos, lá na roça onde passou sua infância, em Iburana, um distrito quase na divisa com a Bahia: “A gente na verdade estudava os quatro livros. Não tinha certificado nem nada”.

Quando tentou entrar no curso supletivo para concluir o ensino fundamental, Paulino não conseguia comprovar que havia estudado as quatro primeiras séries para fazer as quatro últimas em um ano. Mas queria estudar. Foi quando a diretora teve a ideia de submetê-lo a um “exame de suficiência” e ele tirou 10 em quase todas as provas. “Só errei uma questão numa prova e tirei 9,5”, comemora.

E quem disse que a falta de anos escolares faz tanta diferença para Paulino? Ele entende de marketing como ninguém. Escreve os livros, procura patrocínio e, quando não consegue, banca do próprio bolso a impressão. Por causa disso, seus livros estão todos esgotados. Só tem um exemplar de cada um.

Os outros ele vendeu em praça pública em Ecoporanga, com um cartaz feito em folha branca colado sobre um pedaço de papelão. Seu aborrecimento é com as pessoas que pede para digitarem seus livros – sim, porque é tudo manuscrito. Fora do contexto, acabam não entendendo a “alma do escritor”, que tem “licença poética” para criar seus neologismos – desculpe, seu Paulino, talvez esta seja uma palavra nova para você, mas é exatamente isso: neologismo é uma palavra nova, só que criada. Querem exemplos? “Estou precisando imprimir mais do livro Ecoporanga e Suas Raízes, mas vou precisar revisar o trabalho dos meus digitadores. Onde escrevi vaqueirada eles trocaram para vaquejada.

Escrevei posseando e eles trocaram para passeando”, indigna-se, justamente, o escritor de 7 livros, que somente sai de Ecoporanga por motivos especiais. Ah, querem saber o que significa o que ele quis dizer com as novas palavras? Matei na hora: vaqueirada é um grupo de vaqueiros e posseando é o mesmo que tomar posse, assumir a posse, dividir a posse… de terras, óbvio, porque esta é a realidade sociológica do ambiente onde Paulino nasceu e cresceu, tanto que um de seus livros trata, exatamente, dos conflitos terríveis pela ocupação de terras devolutas no extremo Norte do Espírito Santo. Engana-se, porém, quem pensar que toda a formação de Paulino Leite está circunscrita aos quatro anos de bancos escolares. “Eu considero a Igreja a melhor professora.

Tudo que aprendi foi participando das Comunidades de Base da Igreja Católica”, explica o escritor. E sua estreia no mundo das letras não poderia ter outro tema se não “A voz do trabalhador”. E o filho mais novo é “As Raízes de Cotaxé”. Nos primeiros sete anos, Paulino escreveu seis livros.

O mais novo levou outros sete anos. Não que não estivesse pronto. A história dos “enrolos” de políticos, que prometiam publicar e não publicavam, daria um livro por ano. Paulino Leite é um fenômeno, que lembra Cora Coralina, a notável escritora goiana, que despontou aos 76 anos de idade.

Com uma diferença fundamental: Paulino não tem qualquer ascendente famoso ou que o equivalha. Seus pais eram retirantes nordestinos, saídos de Jequié, no sertão baiano, em busca de terras férteis no Norte do Espírito Santo, cenário de todas as histórias que Paulino canta em prosa e verso. E canta, literalmente.

Surpreendentemente, Paulino Leite não é fenomenal apenas por causa dos 7 livros que já publicou, mesmo com pouca escolaridade. Ele tem mais 7 livros prontos para publicar, todos retratando o ambiente onde sempre viveu, marcado no século passado por lutas campesinas – posseiros sendo massacrados por grileiros, que tinham o apoio do Estado. Sertanejo-raiz E quem pensar que Paulino só faz escrever livros, está enganado.

Ele tem pelo menos 250 músicas compostas, todas feitas depois dos 50 anos de idade, quando despertou para a manifestação artística. Para torná-las conhecidas de seu público, formou um trio de sertanejo-raiz: o “Trio Café com Leite”, formado por Paulino no pandeiro, Chiquinho no violão e Miltinho na sanfona. Agora, pasmem! A grande luta de Paulino Leite não é com as letras, mas com os letrados.

Seu único desejo, neste momento, é poder publicar novas edições de seus sete livros e vê-los distribuídos nas escolas, “para que a meninada aprenda mais de nossa história e da história de nossa gente”. Para isso, tem contado com o esforço voluntário de algumas poucas pessoas, impressionadas com seu talento para contar a História de um jeito divertido, que todo mundo vai querer ler. (*) José Caldas da Costa é jornalista há 40 anos, com estudos em Teologia, Letras e Geografia, autor de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditatura”, ganhador do Prêmio Vladimir Herzog 2007.

Por: José Caldas da Costa

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