Lavrador com 4 anos de estudo já escreveu 7 livros

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700Foi na escola da vida, observando e copiando quem sabia fazer, e escutando muito a história das pessoas que Paulino Leite, hoje com 70 anos de idade, buscou inspiração e aprendeu aquilo que se tornou sua razão para viver: escrever livros.

Desde que começou, há mais de dez anos, já produziu sete, todos contando, em forma de versos, que permitem uma leitura dinâmica e divertida, conhecer mais a história da gente e do lugar onde nasceu, cresceu e sempre viveu: Ecoporanga, a 350 quilômetros ao Norte do Espírito Santo. Mesmo o isolamento da cidade não impediu Paulino Leite de inserir-se no mágico mundo da literatura.

Costuma-se dizer que ninguém passa por Ecoporanga, ou se vai ou não se vai, porque até hoje os governos não permitiram à comunidade exercer seu dom da hospitalidade com os passantes, porque não concluem a rodovia federal projetada para ligar as BRs 116 e 101 e que corta o município.

Mas quem disse que Paulino Leite precisa de outras influências para desenvolver sua arte inata? Ele conta como aprendeu a ler e escrever: “Eu tenho uma comadre que lê muito bem. Ficava admirado de ver como ela entendia e pronunciava as palavras e resolvi ser igual”. Paulino frequentou a escola regular por quatro anos, lá na roça onde nasceu e cresceu, em Iburana, um distrito quase na divisa com a Bahia: “A gente na verdade estudava os quatro livros. Não tinha certificado nem nada”.

Quando tentou entrar no curso supletivo para concluir o ensino fundamental, Paulino não conseguia comprovar que havia estudado as quatro primeiras séries para fazer as quatro últimas em um ano. Mas queria estudar. Foi quando a diretora teve a ideia de submetê-lo a um “exame de suficiência” e ele tirou 10 em quase todas as provas. “Só errei uma questão numa prova e tirei 9,5”, comemora.

E quem disse que a falta de anos escolares faz tanta diferença para Paulino? Ele entende de marketing como ninguém. Escreve os livros, procura patrocínio e, quando não consegue, banca do próprio bolso a impressão. Por causa disso, seus livros estão todos esgotados. Só tem um exemplar de cada um.

Os outros ele vendeu em praça pública em Ecoporanga, com um cartaz feito em folha branca colado sobre um pedaço de papelão. Seu aborrecimento é com as pessoas que pede para “corrigirem” seus livros. Fora do contexto, acabam não entendendo a “alma do escritor”, que tem “licença poética” para criar seus neologismos – desculpe, seu Paulino, talvez esta seja uma palavra nova para você, mas é exatamente isso: neologismo é uma palavra nova, só que criada. Querem exemplos?

“Estou precisando imprimir mais do livro Ecoporanga e Suas Raízes, mas vou precisar revisar o trabalho dos meus revisores. Onde escrevi vaqueirada eles trocaram para vaquejada. Escrevei posseando e eles trocaram para passeando”, indigna-se, justamente, o escritor de 7 livros, que somente sai de Ecoporanga por motivos especiais. Um deles já está agendado: ir a Vitória para gravar uma participação no programa “Um dedo de prosa”, da TV Ales. Ah, querem saber o que significa o que ele quis dizer com as novas palavras. Matei na hora: vaqueirada é um grupo de vaqueiros e posseando é o mesmo que tomar posse, assumir a posse, dividir a posse… de terras, óbvio, porque esta é a realidade sociológica do ambiente onde Paulino nasceu e cresceu, tanto que um de seus livros trata, exatamente, dos conflitos terríveis pela ocupação de terras devolutas no extremo Norte do Espírito Santo. Engana-se, porém, quem pensar que toda a formação de Paulino Leite está circunscrita aos quatro anos de bancos escolares.

“Eu considero a Igreja a melhor professora. Tudo que aprendi foi participando das Comunidades de Base da Igreja Católica”, explica o escritor. E sua estreia no mundo das letras não poderia ter outro tema se não “A voz do trabalhador”. E o filho mais novo é “As Raízes de Cotaxé”. Agora, pasmem! A grande luta de Paulino Leite não é com as letras, mas com os letrados. Seu único desejo, neste momento, é poder publicar novas edições de seus sete livros e vê-los distribuídos nas escolas, “para que a meninada aprenda mais de nossa história e da história de nossa gente”.

Para isso, tem contado com o esforço volume de algumas poucas pessoas, impressionadas com seu talento para contar a História de um jeito divertido, que todo mundo vai querer ler. (*) José Caldas da Costa é jornalista há 40 anos, com estudos em Teologia, Letras e Geografia, autor de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditatura”, ganhador do Prêmio Vladimir Herzog 2007.

Por: José Caldas da Costa

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