Dr. Merçon: A história do primeiro médico em Barra de São Francisco

1859

O médico Dr. José Merçon (foto) foi o primeiro médico que penetrou na região acima do Rio Doce e fixou-se em Barra de São Francisco, quando Barra de São Francisco era ainda uma minúscula vila.

Como médico controlou epidemias, conviveu com perigosos bandidos e contribuiu para o desenvolvimento do lugar, que mais tarde dirigiu como prefeito. Depois foi deputado estadual representando a região.

A sua tática de conquista incluiu até os bandidos da área, que poderia ter combatido com a força de chefe político absoluto do São Francisco, condição que conquistou graças ao bom relacionamento com a cúpula em Vitória e ao fato de ser o único elemento com curso superior na região.

Preferiu seduzi-los com propostas políticas. Até o mais perigosos de todos, Alfredo Fagundes, foi transformado em político, tendo pelo PSD exercendo dois mandatos de vereador. Realmente, o seu forte foi a sua matreirice.

Ele foi para Barra de São Francisco na boleia de um caminhão. Isto foi em 1945. Quando chegou, se espantou com um lugar que não tinha água encanada, correios, luz elétrica e nem pensão para pousada. O jornal para chegar levava uma semana. A cidade era a rua principal e alguns ramais paralelos.

Ele contou que era médico recém-formado e estava registrando o diploma em Vitória, quando fui convidado pelo Dr. Thomaz Tomazzi para trabalhar pelo Estado. Naquele tempo havia falta de médico em todo o interior. O Dr. Merçon queria ir primeiro para Castelo, sua cidade natal, mas lá já tinha médico.

Barra de São Francisco não o surpreendeu. A imagem que tinha dela era a mesma que encontrou. Estava se iniciando na profissão e queria um canto de trabalho daqueles. Começou sua lide dando assistência também a Mantenópolis.

Ecoporanga, parte de Nova Venécia, enfim toda a região norte. Sabia que iria ter pela frente uma missão fascinante. Era quase o único capixaba que entrava em Mantena, convulsionado pelo problema do contestado onde Fernandinho (pivot da briga entre mineiros e capixabas) e os seus oficiais da Polícia mineira o tratavam muito bem.

Atendia chamados a 20 e 30 quilômetros de distância. Era uma viagem grande no lombo de um animal. Conviveu com algumas epidemias que levaram a regiões distantes, como uma de Nova Venécia, onde morreu muita gente. Ele também rodava o interior vacinando a população.

Houve uma epidemia de tifo em toda a região norte, na época. Um ano depois, houve, também, um surto muito grande de impaludismo. Morreu muita gente. Nessas epidemias, o governador Carlos Lindenberg lhe deu tudo o que era necessário.

Logo na semana seguinte, após constatar o surto, foi para a região uma equipe de vacinadores. Levaram uma boa quantidade de medicamentos e material para pesquisar o mosquito transmissor. Ele viajou o tempo todo pelo meio da mata.

Naquele tempo tudo era mata. Fez um trabalho contínuo extinguindo praticamente a malária na região. Um pouco antes dessa ação, 1946, morreram mais de 400 pessoas. Havia constantemente endemias e epidemias de malária e impaludismo. Já em 1954, ela desapareceu da região.

Essa luta não o surpreendeu. Esperava realmente enfrentar situações dessa natureza. O seu projeto de vida previa apenas cinco anos de vida em Barra de São Francisco. Depois queria ir para Vitória botar consultório. Mas a política o prendeu em Barra de São Francisco.. Em 1950, foi eleito vereador e presidente da Câmara e assumiu a prefeitura por causa da morte do prefeito.

Foi eleito prefeito em 1954, e novamente 1962. Foi deputado, estadual duas vezes, somente com os votos de São Francisco. Como prefeito, na primeira vez, consegui o serviço de abastecimento d’água da cidade, o que era uma aspiração do médico.

Fez logo o serviço todo de saneamento inclusive fazendo a rede de esgoto. Levou para os distritos também o serviço d’água, embora bem mais modestos. Construí vários postos de saúde.
Dedicou a Barra de São Francisco 26 anos de sua vida. Como presidente do PSD e médico ao mesmo tempo tinha um trabalho enorme.

Por ocasião da luta do contestado, agiu muito bem muito em favor do Estado. Participava de caravanas de militares na missão de conquistar mais espaços para o Espírito Santo. Levava medicamentos também, ia instalando postos que o Floriano Rubim ia criando pelo interior a fora, especialmente nos lugares de jurisdição controvertida.

De certa feita, foi a Ataléia, em Minas Gerais, onde o Espírito Santo não tinha nada, mas corria por lá um boato que o Espírito Santo iria invadir e ocupar a área. Chegando lá, o comandante do destacamento, o prefeito e outras autoridades, o detiveram, suspeitando que ele fosse um comandante da polícia capixaba.

Não acreditaram que eu era um médico. Mandaram então outro médico da localidade conversar com ele para testá-lo. Acabou até receitando no lugar. Na volta alcançaram um lugar chamado de Fidelândia, fora da linha capixaba. Foram também recebidos com muita desconfiança, e não quiseram deixá-lo pernoitar.

A disputa pela região contestada, da qual Barra de São Francisco integrava, não o impediu de se relacionar bem com a figura mineira que comandava a disputa com o Espírito Santo. Um líder político conhecido por Fernandinho, e que ficou famoso pela sua truculência e invasão a territórios capixaba.

Fernandinho vivia convidando ela para se mudar para Mantena, em Minas Gerais, alegando que Barra de São Francisco era infestada de bandidos,. Realmente era verdade, mas como médico o Dr. Merçon se considerava imune à violência dos bandidos. Quase todos eram meus clientes.

Na política, também, o seus adversários eram clientes seu. Quando eleito, a primeira coisa que sempre fazia era o de desarmar espíritos. Tratava muito bem a oposição.

A política também o forçou a consultar de graça, como fazia anteriormente em menor intensidade. Outros médicos passaram por lá, mas nenhum ficou tanto tempo como ele. Passei alguns apertos viajando à noite por dentro das matas para atender a doentes, muitas vezes enfrentando temporal.

Atravessando rios cheios em canoas sem nenhuma segurança. Em decorrência dessa atividade, também pegou impaludismo, que se manifestou quando andava pela rua do Ouvidor, em pleno Rio de Janeiro.

Atendia a todos os chamados, enfrentando qualquer tempo. As vezes ia na companhia de quem vinha chamar, noutras, seguia sozinho. Somente em 1951 é que surgiram estradas de carro para o interior e eu ele pode ir aos lugares distantes de jipe.

Mas antes era somente no lombo do animal. Existia muito boba na região, uma espécie de lepra, mas que é parente da sífilis. E, no entanto, mais sensível ao tratamento. Tratou de muita a laximoniosa. Úlcera tropical, também. Encontrei doenças desconhecidas no curso de medicina.

A polícia do Espírito Santo, tinha ordem de fazer continência para ele, dando-lhe o tratamento de oficial. Ele prestou muita assistência médica à polícia, sem jamais Ter percebido qualquer remuneração. E 80% do contigente capixaba ficava na sua região.

Tratou de muito ferimento de soldado atingido em emboscada, que era a prática da luta na região. Não havia combates de frente. Fora dos soldados, extraiu na região, muita bala, dos conflitos que eram muitos entre os aventureiros em busca de terra. Aprendeu lá que o importante não é extrair a bala, mas cuidar do seu itinerário no corpo da vítima.

Sobre Alfredo Fagundes, que era o valentão da região, ele chegou a conhecer o seu pai: José Marcelino Fagundes, que foi até meu cliente. Ele veio de Minas para o Espírito Santo e disse que ia parar com o negócio de banditismo.

Que não queria matar mais, essas coisas de bandido regenerado. Começou a formar uma fazenda por lá, dizem que os ladrões começaram a roubar até na sua vista as suas coisas. Era cavalo e outros animais. E ele voltou ao crime.

Já o filho Alfredo Fagundes, com a fama herdada do pai, virou uma pessoa temida. Ele ganhava eleição em Paulista, sua região, sempre com 70 a 80 % por cento dos votos. Contaremos depois, a história de outros médicos em São Chico.

Jader Alves Pereira
Teólogo, Jornalista e Historiador
Nascido em Barra de São Francisco