Barra de São Francisco transfere escola família agrícola para o MEPES, criador do modelo

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Agora, é oficial: a Escola Família Agrícola Jacyra de Paula Miniguite, localizada no Córrego do Recreio, no KM 7 da Rodovia Barra de São Francisco-Ecoporanga, deixa de pertencer à rede municipal de ensino para ser mantida pelo Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo – MEPES.

A publicação da Resolução 6074/2021, do Conselho Estadual de Educação, dá solução final à demanda aberta pelo prefeito Enivaldo dos Anjos (PSD) no início da gestão, em janeiro, por considerar que era irregular o município ser mantenedor da escola.

“O município tinha em funcionamento uma escola de segundo grau e isso estava errado, porque não é competência do município o ensino médio e isso poderia dar problema para o gestor no futuro. No início ano, tivemos uma lei aprovada na Câmara autorizando o prefeito a custear o ensino médio desta escola até o final do ano letivo de 2021, e que depois ela passaria para o Estado. Fizemos a proposta, ela foi aceita e, a partir de 2022, a escola deixa de ser municipal”, disse o secretário municipal de Administração, Elcimar Souza Alves.

A transição começou nesta quarta-feira (6), quando a secretária de Educação, Delma Ker, coordenou uma intensa agenda, que começou às 8 horas, com a comissão do MEPES para efetivar a transferência.

“A partir de 2022, o município vai trabalhar em parceria com o Governo do Estado, com as associações, mas as orientações e diretrizes serão da Secretaria de Estado de Educação, porque a escola oferece a partir do 6º ano até o 3º ano do ensino médio, e isso não é competência do município. Nossa obrigatoriedade é educação infantil e educação fundamental”, disse Delma.

Esse processo de transição, segundo a secretária, começou desde janeiro: “Não temos amparo legal para manter essa escola e havia um anseio da comunidade para que a escola fosse dirigida pelo MEPES, através da pedagogia da alternância. A rede municipal continuará com a escola família agrícola Normília Cunha, no distrito de Santo Antônio, que é ensino fundamental”.

A agenda começou com reunião de superintendência regional da Educação, representantes da equipe da Secretaria Municipal de Educação e a equipe de cinco pessoas do MEPES.

Após esse encontro, o grupo foi levado a conhecer a escola, os alunos e todos os espaços físicos e, após o almoço, houve um encontro final com o prefeito Enivaldo dos Anjos para definir as parcerias e a transição “da melhor maneira possível para a comunidade escolar da região”, acrescentou Delma Ker.

ESPÍRITO SANTO: PIONEIRO

O Espírito Santo é o berço da Escola Família Agrícola (EFA), aqui chegando em 1968, com a instalação da primeira unidade, em Luziânia, município de Anchieta, a partir da criação do MEPES –Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo, adotando a pedagogia da alternância: os alunos passam 15 dias na escola, em regime de internato, e os outros 15 dias em casa, aplicando junto à família os conhecimentos que adquirem.

A primeira escola família agrícola de Barra de São Francisco, batizada com o nome de Normilia Cunha, mãe do então governador Albuino Azeredo, foi criada na primeira gestão de Enivaldo dos Anjos como prefeito, entre 1989 e 1992.

Posteriormente, foi criada a segunda escola, em 2005, pela Lei 23, de 21 de março, na gestão de Edson Henrique Pereira, começando suas atividades letivas em 18 de abril daquele ano.

Por estar, irregularmente, sendo mantida pelo município, essa escola, na antiga Casa do Menor, no Córrego do Recreio, agora é transferida para o Estado, a quem compete o ensino médio.

Além das disciplinas convencionais, estudantes de EFA têm ensino técnico em agropecuária e são incentivados a colocar em prática em suas comunidades o que aprendem nos dias de internato.

A Pedagogia da Alternância foi pensada especialmente para os estudantes que vivem no campo. O sistema foi criado na França, em 1935, no povoado de Lot-et-Garonne, buscando fazer com que o estudante tenha constante troca de conhecimentos entre o seu ambiente familiar e a escola.

No Brasil, a metodologia chegou em 1969 no estado do Espírito Santo, onde foram construídas as três primeiras Escolas Família Agrícola. Atualmente, existem cerca de 150 delas em todo o país.

Essas escolas seguem a Base Nacional Comum Curricular do ensino médio estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC) e oferecem ensino técnico que envolve matérias sobre agroecologia, manejo animal, agricultura e agroindustrialização.

No site do MEPES, a história oficial está contada. A instituição foi criada com o objetivo principal de promover o homem por meio da melhoria da qualidade de vida no meio rural.

Essa experiência chega ao Brasil nos anos 60 com o padre jesuíta Humberto Pietogrande e sob a influência das Scuole Della Famiglia Rurale da região de Veneto, na Itália, local de origem do jesuíta. Nessa época o Brasil estava passando por grandes transformações econômicas e políticas.

O êxodo rural era intenso, muitas famílias estavam deixando suas terras e migrando para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida.

“A base para a ação será a promoção do homem todo e de todos os homens, entendido em todas as suas dimensões: espírito, mente, corpo, inteligência, sensibilidade, individualidade, sociabilidade, sem admitir nenhuma exclusão.

Qualquer programa feito para aumentar a produção não tem, afinal, razão de ser, senão colocado a serviço da pessoa humana.

Deve reduzir desigualdades, combater discriminações, libertar o homem da servidão, torná-lo capaz de, por si próprio, ser o agente responsável de seu bem estar material, progresso moral e desenvolvimento espiritual”, escreveu na época o padre Humberto Pietrogrande, que morreu em 5 de agosto de 2015, aos 84 anos, vítima de complicações de diabetes.

A história deste Movimento foi marcada por ações pioneiras, dentro de uma visão de futuro, buscando, a promoção integral do ser humano e melhoria da qualidade de vida no campo.

Através da Ação Comunitária, iniciou suas atividades de diagnóstico da situação e promoveu atividades para despertar a participação das comunidades nas áreas de educação e saúde.

Nasceu também a ideia de adotar a Escola Família Agrícola como um modelo diferenciado para o meio rural, com educacional enfoque no desenvolvimento rural sustentável; e na área da saúde, a construção de um Hospital em Anchieta/ES e instalando mini-postos de saúde em diversas comunidades do município.

Uma estratégia importante nesta conquista é a participação das comunidades e das famílias em todos os níveis de trabalho: superior, gerencial e operacional.

A metodologia promocional do Movimento não abre mão deste requisito e reconhece a chave de todo o sucesso do trabalho: a ativa participação dos elementos envolvidos, quer nas Escolas, quer no Centro de Formação, quer no Centro Comunitário de Saúde e na Ação Comunitária.